Ontem fui a uma palestra do Patch Adams, o excêntrico médico em pessoa.
A palestra foi meio mal divulgada na minha opinião. Fiquei sabendo através de uma amiga e me inscrevi no último dia. À noite. Ou seja, nem deu pra divulgar. Sad.
Rolou aqui no Club Homs, na Paulista.
Fui com minhas amigas da faculdade, todas animadíssimas. Quando que a gente ia imaginar uma oportunidade dessa surgiria? Afinal, Patch é ídolo, praticamente.
Enfim, todo mundo excitadíssimo, umas mil pessoas lá no auditório aplaudindo enlouquecidas quando ele entrou, no seu mais de 1,80m, cabelos grisalhos quase até a cintura, bigodón e uma roupa no melhor estilo Falcão.
Eu fui com minhas expectativas lá em cima, esperando absorver todas as palavras sábias daquele mestre. Such a mistake.
Me decepcionei, essa é a verdade.
Acontece que a palestra não foi nada do que eu imaginava, porque Patch Adams não era nada do que eu esperava.
Esperava ouvir sobre as idéias dele, os feitos, as realizações, o que ele gostaria de fazer e, claro, sobre toda a sua filosofia inusitada, seu modo peculiar de praticar a medicina.
Ao invés disso, me vi no meio de um discurso motivacional. Auto-ajuda pura.
Acontece que ele só deu dicas pra melhorar sua vida, do tipo "seja feliz". Foi um festival de clichês, com direito a um dos meus maiores momentos de vergonha alheia por alguém evá:
Patch:
- Todo mundo gritando: "Eu sou um herói!"
(Quase) Todo mundo:
- Eu sou um herói!!!!!
Ai, meu senso de ridículo.
Acontece que foram basicamente duas horas de positividade forçada enfiada guela abaixo, de frases clichezonas, como "Ame a vida", "Amo todas as pessoas!", "Amo amar!" e tals, regada a algumas pérolas que me fizeram querer levantar e ir embora, tipo:
"A depressão não é uma doença. Ela foi inventada pela indústria farmacêutica pra que as pessoas comprem remédios que não precisam. Ela é só um sintoma da solidão. A solução é fazer amigos!"
ou
"Na nossa clínica, NUNCA demos um remédio a um paciente sofrendo de doença mental. Só tratamos com amor!"
ou ainda
"Decidi que nunca mais seria infeliz na vida. Não ficaria triste mais nenhum dia!"
Gente, pelamor.
Cheguei a ficar triste é de ouvir esses absurdos.
Então depressão é estar sem amigos? Ah, meu Deus, todo mundo sabe que o negócio não é tão simples assim, vai. Quanta gente tem tantas pessoas ao seu redor e vive uma angústia enorme sem saber direito o porque? E os traumas que causam depressão?
E isso de não dar remédio pra doentes mentais?
Vou tratar psicopatas com beijinhos. Esquizofrênicos com abraços.
Isso é uma irresponsabilidade de se dizer, porque a pessoa pode não ter só um problema psicológico, mas também uma alteração química cerebral. Vou tratar os neurônios como? Fazendo cócegas pra eles ficarem felizes?
E essa asneira de ser feliz todo o tempo, o tempo todo, eu nem queria comentar. Super possível, né? Super verdade.
Ninguém sofre perdas, fica doente, tem seus dias de tristeza. Nãão, magina.
Desculpem meu cinismo extremo, mas fiquei muito decepcionada com essa palestra, e até me dói ter que criticá-lo, porque eu tinha muito carinho pela imagem que eu tinha dele na minha cabeça.
E o pior é que eu acho ele tem tanta coisa interessante pra dizer sobre ele, sobre o seu trabalho, que é uma coisa pioneira, inovadora.. E aí me aparece vestido de palhaço falando essas coisas?
É de ficar triste mesmo.
Eu sou contra também esse entupimento das pessoas por remédios, abomino medicação desnecessária. E, além disso, ela tem que vir acompanhada de tratamento psicológico. E vice-versa.
Só amor ou só remédios não ajudam realmente.
Acho que o tratamento médico pode ser algo equilibrado: o médico não precisa ser de gelo, te olhando só como uma doença a ser curada, e não como uma pessoa, te tratando de forma impessoal e negligente. Mas também não quero que um maluco chegue na sala e me abrace, diga que me ama e peça pra eu contar os meus sonhos mais doces.
Acho que dá pra chegar a um meio-termo, aproveitando os avanços da medicina até agora de forma responsável e dando um tratamento mais humano pras pessoas.
Mas sou terminantemente contra excessos. Excesso de pessimismo e excesso de positividade, aquela alegria forçada e quase maníaca.
Não gosto de coisas de auto-ajuda, tipo "Seja feliz em 5 passos" ou "Cure todos os seus problemas em apenas 30 minutos". Odeio soluções pra problemas psicológicos do tipo "faça você mesmo".
Acho que saúde, ainda mais saúde mental e psicológica é uma coisa que deve ser levada a sério. Odeio essa banalização do amor e da tristeza. Dizer que pra todo mundo "eu te amo" é a morte pra mim. Porque ninguém ama todo mundo!
E foi uma tristeza ouvir uma pessoa respeitada mundialmente falar pra uma sala lotada de gente que é possível, sim, ser 100% feliz 100% do tempo.
Essa visão extrema e simplista pra mim é perigosa. Essa ditadura da felicidade, idem.
Eu é que não quero ser obrigada a ser feliz.
Me reservo no direito de ficar triste, às vezes. De sofrer, se assim for necessário. Essas coisas são parte da vida, e a melhor forma de lidar é entender e aceitar que elas existem, e não entrar numa negação doida que nem ele.
Podem xingar, jogar sapato, enfim.. Sei que a maioria não deve ter gostado de ter lido isso, porque Patch Adams é super querido.
Mas acreditem, se alguém tivesse me contado, se eu não tivesse visto com meus próprios olhos e ouvido com meus próprios ouvidos, eu também não acreditaria.